De São Paulo à San Pedro de Atacama: uma aventura em 12 dias

De São Paulo à San Pedro de Atacama: uma aventura em 12 dias

Aproveite as férias para conhecer lugares incríveis – e faça isso de carro!

Para algumas pessoas, viajar requer um longo planejamento. Pesquisar o roteiro, verificar a disponibilidade de hotéis, os passeios e os custos são alguns dos tópicos que figuram nas listinhas da turma cautelosa. Mas como remo contra a maré – para não dizer que ando na contramão –, prefiro desbravar destinos sem nenhum aviso prévio. A maioria acha que dirigir é uma tarefa estressante, eu penso o contrário: cair na estrada é uma forma de esvaziar a mente e recarregar as energias.

O Atacama não é exatamente um lugar desconhecido nas minhas andanças; estive lá por cinco vezes (e apenas em uma delas fui de avião!). Vale cada quilômetro rodado! Já fiz o trajeto a bordo de um Pálio 1.0, um Idea e em um Jimny. Das outras vezes, confesso que o rípio no trecho que divide Argentina e Chile acabou com os meus pneus… Porém, o lugar ficou tão atraente para os turistas, que ganhou asfalto em plena Cordilheira dos Andes. Sucessão!

Sempre tenho a impressão que a pior parte da trip é a que se estende da capital paulista até a tríplice fronteira. E não é apenas por causa das rodovias sinuosas e das centenas de caminhões, mas os radares, os buracos traiçoeiros e os pedágios de valores assustadores se tornam armadilhas para os desavisados. Na entrada do Paraná, por exemplo, há uma cancela que cobra a bagatela de R$ 20 reais (que São Paulo se encarrega de revidar no caminho de volta)!

Nunca desenho um trajeto, coloco as malas no carro, abasteço, confiro a calibragem e aumento o volume da música “Muito Além”, que tem um refrão-chavão para os viajantes de plantão: “Tire os pés do chão, ponha os pés na estrada (…)”.  Mas é importante dizer que mantenho as revisões em dia.

Lá vou eu

A primeira parte da viagem foi uma esticada de 650 quilômetros entre São Paulo e Maringá (PR), que tem boa estrutura e é considerada a capital mundial do fast food. O arsenal de lanches é imenso, o que quer dizer que existem combinações bizarras com frango, linguiça, salsicha, mingon e batata frita – tudo junto e misturado!

Na manhã seguinte, passei em Foz do Iguaçu para resolver a documentação de entrada no Mercosul. É obrigatório ter a “carta verde”, um seguro que deve ser impresso em papel verde. Juro, não é brincadeira! A apólice pode ser feita em qualquer banco ou diretamente com o corretor de sua confiança (fiz por telefone, e recebi via email). Na Argentina e no Chile, o motorista deve ter dois triângulos, colete reflexivo, kit primeiros-socorros e cabo para reboque. É claro que as lojas da fronteira vendem os itens a valores exorbitantes. Então, prepare-se! E não faça a travessia sem comprar a moeda local. Há pedágios do lado de lá e postos de combustível que nem sabem o que quer dizer “cartão de crédito”.

Dá para dormir em Posadas (728,50 KM). Embora o peso portenho esteja desvalorizado, a gasolina é caríssima, algo como R$ 6 reais o litro. As estradas são retões a perder de vista – mas nada de testar os limites do possante, pois a vigia é ostensiva e ninguém quer ser intimidado por policiais argentinos, né?!

O pior pedaço fica cravado entre Posadas e Salta, passando Pampa del Infierno. Sugestivo e literal. Ali tem 40 quilômetros de pistas terríveis. Crateras gigantes, nenhuma sinalização e animais soltos. O duro é que o percurso é feito a noite… Não acredite que Salta é um oásis aos pés dos Andes. Embora o local tenha conquistado fama pela gastronomia (é a terra da empanada), peca pela hospitalidade fraca e hotéis capengas. Se você usa sites de reserva, cuidado para não parar em uma pocilga (que foi o meu caso…).

Terceiro dia e lá vou eu para o deserto mais alto e seco do mundo. Aqui tem que ficar de olho no relógio. A fronteira fecha às 17h no inverno para evitar que os visitantes sejam surpreendidos pela nevasca branca. E o clima muda radicalmente em questão de minutos. Bom, mesmo com a experiência em solo atacamenho, acabei me atrasando e cheguei ao Paso de Jama minutos depois do horário permitido. Fiquei presa na estação de serviços, que se resume a posto, lanchonete e quartos para pernoite com preço de cinco estrelas (sem conforto, limpeza e calefação). Momento drama. Dormi com todas as roupas que havia levado, lembrando que a temperatura cai abaixo de cinco graus negativos fácil, fácil.

A imigração é bem burocrática. Tem algumas etapas a serem cumpridas, questionário e revista do veículo (e vai acontecer igualzinho na volta). Mais um tempão empacado. Ao sair, o finzinho da experiência é satisfação pura. Céu lindo, paisagens desconcertantes, alpacas e vicunhas selvagens.

Em San Pedro, esqueça a palavra economizar. Apenas divirta-se! O melhor hotel é o Tierra (tierrahotels.com), que tem sistema all inclusive, guias especializados, dependências luxuosas e passeios sob medida. O conselho é tirar três dias para aproveitar o básico: Gêiseres del Tatio, Valle de la Luna, Lagunas Altiplânicas, centrinho, Vale del Arco-Íris e Salares.

Meia volta, volver!

Para retornar à casa, Salta novamente se faz presente. E mais uma vez decepciona… A indicação para os prevenidos é ficar em Jujuy. Até aqui foram 2.300 quilômetros e o carro voando baixo graças à gasolina azul, sem uma gota de álcool. Na sequência, dirigi até Corrientes, num longínquo espaço de 830 quilômetros e calafrios pelo medo de ficar sem combustível. Nesse ponto, quase nenhum lugar tem internet (estava com chip local) e o comércio não aceita cartão. Sem opção, gastei o dinheiro e tive que apelar para a solidariedade a fim de não entrar em uma enrascada. Anote: leve um galão como reserva!

No décimo dia me dei ao luxo de emendar uma folguinha em Foz, com direito a compras no Paraguai (sim, amo shopping!!!). Foi o único momento em que o automóvel sossegou, já que atravessei a Ponte da Amizade a pé. E, sem preconceito, descobri até uma cervejaria incrível!

O grand finale foi inteirinho dedicado a cumprir os mil quilômetros que separam Foz e São Paulo, num total de 14 horas de estrada. Óbvio que tive esgotamento físico, mas o percurso é tão inesquecível, que nem o cansaço é capaz de derrubar. Dessa vez, cruzei 6.279 KM – e alcancei a marca de 100 mil KM de viagens pela América do Sul.

 

 

 

 

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