Repaginado, o jipe russo mais antigo em produção chega com motor 1.8, central multimídia e 350 componentes novos
Há carros que nascem para durar. Poucos levam essa frase tão a sério quanto a Lada Niva. Lançado em 1977, na fábrica de Tolyatti, no Oblast de Samara, ele foi o primeiro automóvel inteiramente projetado pela AvtoVAZ sem depender do projeto da Fiat. O acordo com a montadora italiana, firmado em 1966, havia dado origem ao VAZ-2101, cópia licenciada do Fiat 124. A Niva, porém, era criação russa do início ao fim.
O design partiu de um princípio inovador para a época: um jipe compacto com tração 4×4 permanente, monobloco e suspensão independente dianteira. Nada de chassi separado, nada de simplicidade rústica disfarçada de robustez. O projeto foi comandado por Vladimir Solovyov, e o resultado coube em um corpo de apenas 3.740mm de comprimento, 1.680mm de largura e 1.640mm de altura, com peso de 1.210kg. O motor original era um 1.6 de 80 cavalos, logo substituído pelo 1.7 de 83 cavalos que perdurou por décadas.

A Niva foi exportada para mais de 100 países. Chegou ao Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Austrália, Equador, Egito, Grécia e Jordânia, com montagem local em vários deles. Na Alemanha e na Áustria chamou-se Lada Taiga; no Reino Unido, Lada Cossack; na Islândia, Lada Sport. Os Estados Unidos foram o único grande mercado que nunca a importou (Até por aqui ele vingou, símbolo da Era Collor, que abriu o mercado para o mundo). Durante os anos 1970 e 1980, mais de 60% da produção da AvtoVAZ seguia para exportação.
Agora, em julho de 2026, a Niva Legend passa pela maior reformulação de seus quase 50 anos de existência. São mais de 350 componentes novos ou modificados, sem alterar a aparência que todos reconhecem. A carroceria permanece a mesma, mas o que há sob ela mudou geral.
O destaque mecânico é o novo motor 1.8 a gasolina, de oito válvulas, que substitui o antigo 1.7. A potência sobe de 83 para 90 cavalos. A transmissão manual de cinco marchas, com tração 4×4 permanente, agora é controlada por uma única alavanca em vez das duas anteriores. O painel ganhou central multimídia inédita, isolamento acústico reforçado e, pela primeira vez, airbag para o motorista. Sim, alta tecnologia na Niva significa ter airbag em 2026!

O preço da versão básica ultrapassou a barreira de 1 milhão de rublos em janeiro de 2025, e agora parte de aproximadamente 1,1 milhão de rublos, o que equivale a cerca de R$ 70 mil na cotação atual. Em dólares, fica na faixa de US$ 12.500. É um valor baixo para padrões globais, coerente com a vocação utilitária do carro.
A Niva continua sendo à combustão. Nada de híbrido, nada de elétrico. A AvtoVAZ mantém a aposta na simplicidade mecânica, na facilidade de reparo e na capacidade off-road que consagrou o modelo em pistas e estradas precárias pelo mundo. O jipe russo não foi feito para impressionar em showrooms climatizados, mas, sim, pensado para atravessar o que vier pela frente.
A produção da versão atualizada começou na fábrica de Tolyatti, e a apresentação oficial ocorreu no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, em junho de 2026. A AvtoVAZ planejava produzir cerca de 400 mil veículos em 2026, mas reduziu a meta por conta da demanda mais fraca que o esperado nos mercados de exportação. A Niva, porém, segue como pilar da marca.
Em quase meio século de produção ininterrupta, a Niva sobreviveu ao regime soviético, à transição para a economia de mercado, à saída da Renault em 2022 e ao retorno ao controle russo por apenas “um rublo” simbólico. Sobreviveu, incluive, aos haters. E continua de pé, agora com motor 1.8 e airbag. @allnewlada
Patrícia Favalle


