O fim do carro como território masculino

Durante décadas, o automóvel foi vendido como um signo essencialmente masculino. Potência, velocidade e desempenho eram os pilares de campanhas publicitárias que associavam carros à virilidade, ao status e ao controle. Nas concessionárias, era comum que vendedores direcionassem explicações técnicas aos homens, mesmo quando a mulher era a compradora. Mas, felizmente, esse cenário mudou.

Hoje, o carro deixou de ser jurisdição masculina e as mulheres passaram a ocupar um espaço decisivo dentro da indústria automotiva, influenciando tendências, prioridades e até o desenvolvimento dos protótipos lançados. A escolha de um veículo não gira apenas em torno da potência e do desempenho. Segurança, conforto, conectividade, praticidade, detalhes de acabamento e identidade agora pesam na decisão de escolha.

A transformação acompanha uma alteração histórica e social. A primeira mulher a dirigir um automóvel no mundo foi Bertha Benz, em 1888, ao percorrer mais de 100 quilômetros em um carro criado por seu marido, Karl Benz (sacou o sobrenome?). Por aqui, a presença feminina ao volante cresceu principalmente a partir das décadas de 1950 e 1960, acompanhando a entrada das mulheres no mercado de trabalho e o avanço da independência financeira. Ainda assim, por muitos anos o setor ignorou o público feminino como protagonista de consumo. Agora, nós dirigimos, pesquisamos, financiamos e influenciamos diretamente o segmento.

Não por acaso, os SUVs dominam o nosso imaginário. Modelos como Jeep Compass, Jeep Renegade, Volkswagen T-Cross, Honda HR-V e Hyundai Creta aparecem frequentemente entre os carros mais desejados por mulheres. A preferência não acontece por acaso. A posição mais alta transmite sensação de segurança e melhor visibilidade no trânsito – especialmente em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde conduzir exige atenção constante e resistência emocional (mas para a machosfera isso é interpretado como uma espécie de compensação do “eterno complexo de inferioridade das mulheres”).

Deixando o machismo de lado, faz tempo que o automóvel se tornou um espaço íntimo de convivência. Para muitas de nós, o carro virou uma extensão da própria rotina. É dentro dele que se atende chamadas de trabalho, se escutam podcasts, se organizam compromissos e se respiram alguns minutos entre um compromisso e outro. Em tempos de hiperconectividade e jornadas múltiplas, o veículo tem um quê de autonomia e abrigo.

A estética ganhou nova roupagem. Se antes o discurso era dominado por cilindradas e cavalos, hoje, o design, os detalhes internos, a tecnologia embarcada e a experiência sensorial têm enorme relevância. É só olhar para o Mini Cooper, por exemplo, para notar como isso tudo traduz o objeto de identidade visual em comportamento e estilo de vida.

As próprias montadoras perceberam a necessidade de mudança – sim, a mulherada representa 48% das motoristas brasileiras e uma fatia generosa que soma 45% de compradoras solos (com inadimplência três vezes menor do que seus pares), e chega a 80% em decisões familiares, segundo dados da McKinsey & Company. Ou seja, vender carros para mulheres é um baita negócio! Por isso mesmo, tecnologias como câmera 360 graus, sensores de estacionamento, assistentes de direção, integração com smartphones e interiores mais sofisticados deixaram de ser diferenciais para ocupar posição central nas campanhas publicitárias. O mercado entendeu que a consumidora quer experiência, e não apenas desempenho.

Isso não significa que mulheres não se interessem por eficácia ou performance. O ponto aqui é sobre a lógica de consumo que se tornou mais ampla, emocional e multifatorial. Ficou démodé associar o carro à força masculina; agora a narrativa busca interpretar o espaço de liberdade feminina, de representatividade, de praticidade e de expressão pessoal. Finalmente, o mercado automotivo acelera na ideia de empoderar o mulheril. Um avanço enorme dentro de um reduto construído com ideologias de gênero tão ultrapassadas.

Patrícia Favalle

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