QUANDO DESOBEDECI A DIRETORIA. COM RAZÃO! (O fim do chiqueirinho na GM de SJC)

Em abril de 1985 o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, SP, reivindicava a diminuição da jornada de trabalho, de 48 para ​45 horas semanais e reajuste salarial. A GM, não aceitou os pedidos dos trabalhadores ​o​ que gerou uma das greves mais combativas da história do sindicalismo.

​O​ movimento começou no dia 11 de abril daquele ano e, no dia 25, após a demissão de 93 metalúrgicos, por justa causa, a fábrica, na Via Dutra, foi invadida, com os funcionários, homens, gerentes dos escritórios (os “colarinhos brancos”) retidos e colocados em um gramado​ cercado, que foi apelidado de “chiqueirinho” já que, ao pedirem para ir ao banheiro, recebiam como resposta: “faça aí mesmo”.

Muitos fugiram se arrastando pelo chão e passando por um charco em havia nos fundos da fábrica.

Essa atitude dos grevistas gerou grande animosidade que persiste até hoje, entre seus personagens, ainda que tanto tempo, 41 anos, tenha passado.

Para impedir a presença da Polícia e da Imprensa, os grevistas colocaram diversos carros tirados da linha de produção e colocaram junto à cerca da fábrica, com estopas banhadas ​e​m gasolina, na boca dos tanques de combustíveis: “e a Polícia entra, vamos tocar foto em tudo” era a ameaça.

A desobediência

Fui chamado para uma reunião, com a diretoria e pessoal envolvido com o antigo RH, para tomar conhecimento dos fatos. Herbert Brenner, então diretor da área relatou os fatos que estavam ocorrendo na fábrica de São José dos Campos deixando a todos surpresos com o detalhe do “chiqueirinho”, algo considerado um atentado à segurança e dignidade dos funcionários dos escritórios.

Aí, veio a ordem: “chicolelis, isto não deve ser passado para a Imprensa, pois pode provocar uma tragédia em São José dos Campos. Estamos tentando negociar, apesar ​d​a liderança do movimento não aceitar ouvir a nossa contra proposta”.

Fui para minha sala e fiquei “pensando com os meus botões”, sobre o o absurdo que estava ocorrendo em SCS, não pela greve, que​ até podia ser ​justa. Mas pela atitude de prender pessoas em um cercado, impedindo-as de usar um banheiro e humilhando-as com aquele: “faça aí mesmo”.

Calculei todos os riscos e resolvi ligar para o meu amigo Miguel Jorge, então editor chefe de O Estado de S. Paulo, contando a ele todos os detalhes dos acontecimentos de SJC, deixando para o fim a questão do “chiqueirinho”.

Ouvi quando, ao soltar um “impropério”, dar um  soco na sua mesa e dizer que iria tomar providências.

Estadão em SJC: a greve acaba 

Os primeiros números d​a edição do  ​”Estadão​”, naquele dia, 27 de abril de 1985, foram direcionados para a Via Dutra e deixados na porta da fábrica da GM. A manchete (ver reprodução da capa) “CÁRCERE PRIVADO NA FÁBRICA DE SÃO JOSÉ” deu fim à greve.

Na reunião seguinte, quando a diretoria foi reunida, com o pessoal de RH, perguntaram se tinha sido eu o autor do vazamento. Concordei que sim e, já esperando a reação (​”mas você tinha tido ordens de não falar coma Imprensa sobre isso​”),​ reagi dizendo que eles entendiam de fabricar carros e eu de Imprensa e que sabia que a reação do Estadão, por intermédio do seu editor chefe seria racional, sem criar mais problemas do que aqueles que já existiam em SJC.

Silêncio na sala.

Afinal, minha atitude havia colaborado para o fim da greve. Mas os metalúrgicos venceram: a jornada de trabalho foi reduzida para 45 horas em setembro.

 

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